Essa travessia tende a ser uma das mais duras e complicadas de toda a nossa subida até Noronha.
O vento predominante, bem como a correnteza, costumam ser de NE, exatamente a direção que temos que seguir. As condições estavam péssima e tivemos que adiar o início da travessia. Ficamos no clube alguns dias esperando novas condições, mas nada do NE dar uma trégua.
Como o vento havia diminuido, resolvemos ir até Búzios. Contudo o vento foi aumentando e aumentando e como ninguem merece velejar no contravento, folgamos as velas e fomos procurar abrigo em Arraial do Cabo. Novamente na Praia dos Anjos.
Quando acordamos o vento estava de Sul e imediatamente seguimos nosso caminho para vencermos o São Tomé!
Fomos velejando até faltarem menos de 30 milhas, até que o vento parou por completo e ligamos o motor. Agora éramos procurar abrigo em Macaé ou seguirmos até Guarapari a 90 milhas.
Resolvemos arriscar e irmos em frente. 15 milhas após passarmos São Tomé, o NE continua apertar, apertar e singrávamos menos de 2 milhas por hora. Foi quando escureceu, as ondas começaram a quebrar no convés, o grande já encontrava-se no 3 rizo e tentei içar uma das 4 storm jibs que possuímos, foi então que tive uma triste surpresa!
Antes de sairmos havíamos deixado as principais velas na VELERIA COGNAC VELAS. Quando fui içar a storm, percebo que ela está errada, que o cabo de aço da testa está solto e que a vela não arma. Estava confiante na qualidade do serviço do Arnaldo, uma triste decepção.
Bom para aprender a nunca mais fazermos vela com ele, nem mesmo consertarmos nossas velas lá!
Depois dessa, resolvi fundear! Isso mesmo, estávamos a 15 milhas da costa, com profundidade variando de 10 a 20 metros. Confiando na qualidade dos cabos da Cordoaria São Leopoldo lançamos nossa âncora secundária, uma Bruce de 20 quilos, com 100 metros de cabo e outros 100 reserva. Vai que o cabo parte! Não pensei que fossemos unhar, mas para nossa felicidade a âncora fixou-se firmemente no fundo e pudemos dormir, “tranquilos”, na medida do possível.
Já que lá fora o vento chegava aos 35 nós e as ondas lavavam o convés. A proa diversas vezes batia com força nas ondas, mas nada sofreu o veleiro. Mas a tripulação acordou um pouco renovada, mas muída.
Quando dei a ordem de lançarmos o ferro, os tripulantes ficaram assustados e receosos. Mas no dia seguinte todos concordoram com minha decisão. Pois perceberam que não adiantava ficarmos sofrendo e tentarmos lutar contra o tempo.
Tomamos um reforçado café da manhã e seguimos em frente. Hora de recolhermos 100 metros de amarra. Foi até fácil. Ligamos o motor e seguimos, o mar já estava um pouco mais calmo e o vento havia diminuído consideravelmente.
Fomos velejando na esperança de conseguirmos abrigo em Piúma que encontrava-se a menos de 30 milhas de nosso último fundeio. Contudo a correnteza chegou a mais de 3,5 nós contra e nossa singradura ficou muito comprometida. Velejamos o tempo todo, mas com o entardecer o vento aumentou. E com isso a correnteza e as ondas. Faltavam menos de 10 milhas de nosso destino. Ou ficávamos lutando, forçando o barco e o ânimo da tripulação ou iríamos procurar abrigo em mar aberto, novamente!
Nos afastamos da costa mais algumas milhas e hora de lançarmos o ferro novamente!!! Essa noite foi até mais tranquila, as ondas não estavam tão fortes, mas o vento continua castigando.
Um dos tripulantes mais experientes até brincou, que poderíamos fazer um filme sem termos que efetivamente velejarmos. Já que a impressão que dava é que estávamos velejando a mais de 5 nós, devido a forte correnteza e a velocidade estúpida das ondas.
Na manhã seguinte, agora faltando menos de 35 milhas para Guarapari. Acordamos cedo, içamos a âncora e fomos rapidamente com o motor ligado, antes que o vento e a correnteza resolvessem dar as caras.
Ao chegarmos em Guarapari, NE aperta e nos sentimos aliviados por estarmos em águas abrigadas.
Descemos na cidade e fomos recepcionados com uma música de péssima qualidade, saímos correndo e fomos procurar abrigo num tranquilo restaurante.
Na manhã seguinte, mais uma surpresa! Ao içarmos a âncora, içamos junto uma poita. Isso mesmo, uma poita (armação de concreto utilizada para deixarmos as embarcações). Detalhe que a içamos no braço. Hora de nosso amigo mergulhador mostrar sua função! Depois de quase uma hora nos safando, içamos as velas e seguimos velejando, agora com o bendito vento SUL, até Vitória.
Quando estávamos chegando no clube, vimos um veleiro também vindo do sul. Ao nos encontrarmos com eles no clube, eles nos disseram que sairam a menos de 36 horas de Búzios, aproveitando uma breve janela de sul!




















