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icon-1 Desafio Mistralis - Cabo Horn

Convidamos você a participar da mais desafiadora travessia de nosso planeta.

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Velejando e Pedalando pela Baía de Todos os Santos

Velejando e Pedalando pela Baía de Todos os Santos

Depois de participarmos da Regata Aratu-Maragojipe, voltamos para o Aratu Iate Clube onde desembarcamos nossos tripulantes e resolvemos tirar uns dias de folga.

Ficamos o tempo suficiente no clube para realizarmos as fainas a bordo, lavar o convés, verificar velas e cabos, reparar algumas peças, revisarmos o motor e diversas outras tarefas fundamentais para a realização de futuras travessias.

Barco preparado, hora de trabalharmos em nossa empresa, desenvolvermos artigos para Perfil Náutico, atualizarmos o site e prospectarmos novos clientes para as próximas atividades. Feito tudo isso, içamos as velas e fomos curtir alguns momentos pela Baía de Todos os Santos.

Passamos pela Ilha de Maré, Ilha dos Frades e Igreja do Loreto, onde pensávamos em pernoitar. Mas como a velejada estava tão agradável resolvemos seguir e resolvemos navegar novamente pelo Rio Paraguaçu até Maragojipe.

Depois de sairmos da Ilha dos Frades, teríamos que nos desviar de um banco de areia demarcado na carta náutica. Traçamos o rumo e continuamos velejando, mas algo não condizia com as informações da carta náutica. Percebemos que o banco havia se deslocado bastante, pois a cor da água estava diferente e o mar mais agitado no local do banco. Um aviso aos velejadores pouco experientes, nunca confie completamente nas cartas náuticas e sempre se mantenha atento à navegação.

Como não havíamos programado essa velejada, tivemos que lutar contra a forte correnteza de vazante, que alcança os 3 nós em marés de lua. Um preço que pagamos por termos mudado de planos, mas que certamente valeu muito a pena pela beleza e pelos momentos agradáveis que iríamos passar explorando a região.

Chegamos em Maragojipe com o Sol se despedindo, fundeamos e, mantendo o vício de verificar os emails peguei meu celular. Para minha surpresa e futura alegria constatei que não tinha sinal, agora só tinha que me desligar e curtir a vida. Ruim para os negócios, mas ótimo para a vida.

Explorando a região de Maragojipe e Reconcavo Baiano

O primeiro desafio seria montar as bicicletas no veleiro e depois transportá-las até o pier em nosso pequeno bote de 3 metros. Desembarcamos as bicicletas no pier flutuante e fomos conhecer a cidade. Uma pedalada leve para esticarmos nossas pernas, visto que as mesmas ficam praticamente paradas durante as travessias, onde utilizamos apenas os braços e o tronco.

Pela frente tínhamos um pier com quase 350 metros de extensão, uma obra muito bonita, por onde transitam pequenos carros, motos, bicicletas e carroças. Ficamos impressionados com a cultura esportiva dos moradores. Todos os dias, e foram muitos dias, que ficamos ancorados próximos ao pier, vimos pessoas se exercitando. Desde aposentados a jovens, que também aproveitam o fim do dia para mergulharem. Um local pequeno, mas muito festivo e cheio de vida e alegria.

Quase todas as ruas são de paralelepípedos, muitos “sobes-e-desces”, com um povo muito festeiro e educado. Uma cidade que ainda preserva suas tradições, tanto na pesca quanto na agricultura. Por todos os lados vemos os pescadores com suas canoas movidas a vela e remo, vemos os saveiros de pena transportando toneladas de mercadorias entre Salvador e a a cidade de Coqueiros e a agricultura familiar.

Na baía de Maragojipe, encontramos fundeados alguns veleiros, sendo que a maioria de estrangeiros. Ficamos amigos de um casal de velejadores suiços que deixaram suas vidas atribuladas e foram velejar pelo mundo.

Somente em Maragojipe eles passaram mais de 45 dias, isso mostra como o local é aprazível e como vale a pena conhece-lo. Claro, se você for uma pessoa que gosta de tranquilidade e procura paz, longe dos agitos e das noitadas. Lugar onde utilizamos o relógio apenas para sabermos a maré e podermos navegar, fora isso nos guiamos pela altura do Sol e pela nossa vontade interior.

Com nossos novos amigos suiços, que também levam a bordo suas bicicletas, fomos visitar a Praia do Pina. Uma pedalada tranquila pela cidade e alguns quilômetros de estrada de terra pela frente.

Na Praia do Pina que fica cerca de 5 km do pier, vemos o trabalho árduo dessas pessoas que passam boa parte do dia agachados, com uma espécie de pá, a cutucar o solo com a maré baixa e catarem os marisco e conchas. Uma vida muito dura e mau remunerada, um tapa na cara das pessoas que pensam em reclamar da vida.

A Praia do Pina existe apenas quando a maré está baixa, com maré cheia a água toma conta da faixa de areia e lama. Um local com vários quiosques que oferecem um pouco da culinária local e ótimo para se passar o tempo e vermos os saveiros de pena aproveitando a maré enchente para retornarem a Coqueiros, ponto de partida da navegação até Salvador.

No dia seguinte resolvemos fazer uma pedalada mais longa e cansativa, seja pela distância, pelo calor que não dá trégua ou pelas diversas subidas que teríamos pela frente.

Como os suiços possuiam bicicletas desmontáveis e nós bicicletas próprias para qualquer terreno, decidimos dividir nosso grupo: homens nas bicicletas e mulheres nos táxis locais, que fazem o transporte pela região, numa espécie de lotação.

Logo no começo a pedalada mostrava como seria difícil. Na saída da cidade uma placa de boas vindas e volte sempre, que nos recebia com uma bela subida. A pedalada toda vai próxima ao Rio Paraguaçu e podemos ver a forte movimentação das embarcações locais. Um cenário muito bonito, mas ao mesmo tempo muito quente.

Depois de percorrermos 25 km chegamos a cidade de Cachoeira, onde o grupo se juntou novamente. Agora éramos 4 pessoas pedalando e conhecendo a cidade. Sem dúvida alguma a melhor forma de conhecermos qualquer região.

Com as bicicletas nos sentimos livres e conseguimos percorrer grandes distâncias sem termos que nos preocupar em pegar alguma condução.

Cachoeira transborda história por todos os lados. Ao pedalarmos nos deparamos com o autêntico estilo colonial da cidade, refletido nas praças, nas ruas, nas diversas ladeiras, casas e monumentos. Cachoeira recebeu o título de Cidade Monumento Nacional e podemos comprovar o merecido título na exuberância dos sobrados que mostram a riqueza da época da nobreza do Brasil Império

Conhecemos as 2 fábricas de charutos da região, o Museu Hans Bahia e diversos outros ateliers e pontos históricos das duas cidades divididas apenas por um bela ponte de ferro de mão única.

Depois de visitarmos a cidade de Cachoeira e São Felix, comprarmos algumas lembranças e comidas típicas, tínhamos que voltar. Hans Peter, nosso amigo suiço, colocou as três bicicletas e foi de táxi acompanhando as mulheres.

Eu regressei pedalando e lutando contra o Sol, o asfalto quente e as diversas subidas que não paravam de aparecer. Depois da pedalada hora de irmos descansar no barco.

Tiramos o dia seguinte para irmos à feira semanal da região. Nela todos os produtores locais trazem sua plantação e vemos como é rica a região. Compramos tudo o que precisávamos e abastecemos o barco para mais uns bons dias. Aproveitamos e fomos conhecer o artesanato local. Descansamos cedo e nos prepararmos para mais um dia de exploração pela região, dessa vez pelo mar.

Recebemos o casal suiço, levantamos a âncora, içamos a vela e pela frente teríamos como destino o Convento de Santo Antônio do Paraguaçu, o primeiro a ser estabelecido no Brasil pela congregação franciscana. Sua construção teve início em 1649 e seu interior era repleto de obras de arte. No Convento funcionou um Noviciado e um pequeno hospital. Em 1855 o Império proibiu a admição de noviços. Depois o Convento foi abandona e fortemente espoliado. Somente em 1941 o imóvel foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que tem realizado trabalhos de conservação e resutaração das imagens.

Um lugar com uma energia muito forte e uma beleza que só pode ser comprovada pessoalmente.

Mais uma vez mudança de planos, como a navegação estava agradável resolvemos nos aventurar subindo o rio. Agora já não contávamos com nenhuma carta náutica local e subimos o rio com a experiência adquirida em anos de navegação.

Até Santiago do Iguape tínhamos pela frente pouco mais de 5 milhas náuticas, que foram percorridas tranquilamente costeando a margem esquerda do rio. Sempre com profundidades acima dos 3,5 metros. Depois de fazermos uma curva acentuada nos deparamos com uma enorme igreja, fundeamos o Mistralis em frente e fomos explorar a região a pé.

Iguape é uma pequena vila de pescadores e agricultores locais.O que mais chama a atenção é a Igreja Matriz de Santiago do Iguape, uma construção que nunca chegou a ser concluída. Fato que pode ser comprovado ao visitarmos o interior da mesma. Possui um pé direito impressionante, no seu interior nos sentimos pequenos ao olharmos para o teto.

Ainda no interior da Igreja encontramos uma lápide do Major Manoel Francisco Ramos Barreto condecorado com a medalha da guerra da Indepência, um monumento marcante para os visitantes.

Depois de visitarmos a região, levantamos a âncora e nos despedimos de nossos amigos. Agora era hora de nos prepararmos para continuarmos com nossas travessias oceânicas pelo Brasil e recebermos nossos tripulantes.

Esses dias que passamos em Maragojipe, pedalando, velejando e caminhando pela região foram nossas merecidas férias desde 2008 quando terminamos a reforma do veleiro Mistralis e retomamos nossas atividades no mar. Seja com cursos de vela, treinamentos empresariais e travessias ocênicas, atividades essas que exercemos desde 2001.

Pela frente teríamos mais algumas centenas de milhas até chegarmos no Recife e de lá partirmos para Fernando de Noronha.

Texto da Edição 29 da REVISTA PERFIL NÁUTICO.

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